"O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos." (Marguerite Yourcenar)

«Adevăratul loc de naştere este acela unde pentru prima dată ai aruncat asupra ta însuţi o privire pătrunzătoare» (Marguerite Yourcenar)

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28 de jul de 2011

FROM RUSSIA, WITH LOVE

          Em 1º de junho de 2009, enquanto eu ainda vivia na Romênia, ganhei da minha amiga Ioana um cartão. Ioana e eu conversávamos sobre coisas muito filosóficas e outras, por vezes, um tanto quanto saudavelmente infantis. Naquele cartão, ela escreveu: Feliz Dia da Criança, para Raul Passos, cidadão universal.
          Agora, nesse preciso momento, à bordo de um trem que me leva de Moscou a São Petersburgo, me lembro da minha amiga Ioana e do alcance dessa frase quase inocente: "cidadão universal". Sempre me achei absolutamente absolutamente capaz de viver em qualquer parte, com quaisquer tipos de pessoas, isso em grande parte por causa da minha grande capacidade quase recriminável de me moldar ao meio externo e às pessoas. Essa percepção caiu por terra, talvez, quando conheci Amsterdam. Conhecendo Amsterdam, conheci também o limite da minha adaptabilidade. Deixo claro que gostei muito da capital holandesa, de seus infindáveis canais, das pessoas cultíssimas, dos biscoitos de manteiga e mercados de flores. Mas o mundo da perfeição não é para mim. Amsterdam é perfeita demais, a tal ponto que senti que não poderia ficar ali mais do que 2 dias. Há algo na leveza da perfeição que me é insuportável (evocando Milan Kundera...). Talvez por isso tenha nascido no Brasil, terra imperfeita. A minha pedra bruta parece se moldar quase carmicamente aos lugares em que as minhas certezas são postas à prova a cada esquina; onde a maior certeza da vida torna-se absolutamente frágil e falível; onde os meus medos ganham o esteio do distante, do inalcançável, onde tudo é possível.
            É como se eu renascesse. E me sinto como tal diante dos desafios e das possibilidades.
            ...
            Nasci em Moscou.

            Nasci com a nova memória que me levou de repente a Bucareste, sem no entanto exigir o meu sentimento por Bucareste. Como se de repente a paisagem me forçasse a pensar de outra maneira, à espera do meu novo nascimento na próxima rua.
            Pushkin, Tchaikovsky, Tolstoi, Dostoievski, Roerich, Scriabin... muitos caminhos levam à Rússia. Não cheguei a Moscou por nenhum deles, e tampouco a Rússia os exigiu de mim. A Rússia não me pediu para que a olhasse ou que a aceitasse. Pela primeira vez na vida estive em um lugar onde só me era exigida - muito suave e delicadamente - a minha capacidade e o despojamento de aceitar o presente.
            Também não exigi nada da Rússia. Vim sem a mais humilde das expectativas. E dela sairei com um presente intangível, que não chego mesmo a sequer compreender. A Rússia não me diz "Fique!". A Rússia não me diz "Volte!". Mas me diz silenciosa e poderosamente para que eu "SEJA".
             E não ouso desobedecer.

em 27 de Julho de 2011