"O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos." (Marguerite Yourcenar)

«Adevăratul loc de naştere este acela unde pentru prima dată ai aruncat asupra ta însuţi o privire pătrunzătoare» (Marguerite Yourcenar)

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4 de abr de 2012

MANIFESTO SOBRE O EXERCÍCIO DA VIRTUDE NO UNIVERSO DA MÚSICA E DA TRADUÇÃO



            Qualquer tentativa de se redigir um ensaio contemplando a aplicação e o exercício da virtude na vida profissional seria desprezível se se detivesse única e restritamente no domínio da própria profissão. Em outras palavras, não é possível, se se pautar pela sinceridade e pela autenticidade, esboçar uma única linha sequer para se falar de ética e de valores se interpretarmos a nossa conduta profissional dissociada daquela de nossa vida pessoal. Ora, não são o eu-profissional e o eu-pessoa o mesmo indivíduo? Não experimentam ambos os mesmos sentimentos? Não têm ambos o mesmo modo de pensar, as mesmas crenças e as mesmas aspirações? Portanto, pregar uma maneira de agir profissional diversa daquela que empregamos na vida pessoal seria falso – para não dizer impossível –, posto que é o mesmo ser que experiencia as duas realidades. Os ideais, a retidão de caráter, a amabilidade, a vontade de servir, a cortesia e o desejo de aprender devem ser sempre uma constante natural e (por que não dizer?) instintiva naquele que condiciona sua esfera de ação aos limites do esquadro da virtude.
            Contudo, em que consiste o vigor necessário ao aprimoramento profissional e que resultado desejamos contemplar na forma de uma jóia? Compete a cada um ter a sensibilidade e o conhecimento necessários para saber O QUE e COMO fazer no âmbito de suas profissões.
            No que me toca, tenho a incumbência e a honra (sim, me sinto orgulhoso) de me dividir em duas esferas profissionais contíguas. Músico nasci e músico partirei para o Oriente Eterno. Todavia, à minha carne e ao meu sangue musical, certamente por razões cármicas, agregou o Grande Arquiteto dos mundos um desejo inelutável, já manifestado na primeira infância, de conhecer culturas diferentes. E o que melhor pode sintetizar a cultura de um povo (entendendo-se por cultura o conjunto complexo de hábitos e tradições) senão sua língua? Quantos de nós já nos detivemos para refletir sobre o peso secular da história que transparece no aparentemente simples falar de um idioma? Quanta filosofia já foi escrita numa língua para expressar o sentido de ser de um povo? Quantos discursos inflamados de liberdade, quantos romances contendo a quintessência da alma pátria e quantas cartas de amor se produziram contendo em si a densa porém sensível identidade necessária do idioma? Assim sendo, mais ou menos naturalmente, desde cedo compreendi que seria preciso empregar minha facilidade em adquirir línguas a serviço de um ideal maior e aparentemente utópico: afinal de contas, facilitar a comunicação entre pessoas não é permitir que a fraternidade ultrapasse limites? O entendimento mútuo, por essa mesma linha de pensamento, não é condição sine qua non para que a paz reine?
            O métier da tradução exige não apenas um conhecimento lingüístico apurado – sobretudo na língua-mãe –, requerendo também uma percepção cultural bastante ampla, o que engloba o entendimento do pensamento do povo e a sensibilidade para com a produção literária e outras nuances do modus vivendi dos países da língua em questão. Nesse particular, além da sede constante de conhecimento, o tradutor deve ter mente aberta, ser flexível, livre de preconceitos, impessoal e respeitar a integridade e a integralidade da cultura envolvida, sendo perspicaz o bastante para reproduzir (e recriar) no vernáculo cada pormenor contido na expressão do idioma sem que haja prejuízo ou supervalorização de significado. Como se pode ver, um caminho bastante estreito se se pretende evitar qualquer tendência; equilibrar colunas é sempre o mais difícil, seja em nossas ações, em nossas palavras ou em nossos pensamentos. A ética e a imparcialidade são duas virtudes fundamentais numa profissão que, por força de sua própria natureza, pode ser definida, de acordo com Umberto Eco, como a arte do dire quasi la stessa cosa; “dizer quase a mesma coisa”.
            Regressando um pouco para a terra firme, esse é o ponto em que eu os convido a pensar em quantas pessoas, no meio profissional de cada um, são “pseudo-profissionais”. Sabemos que apenas uma parcela de nossos colegas de profissão – qualquer que seja ela – é verdadeiramente comprometida com os ideais próprios a ela. Da mesma forma, sabemos, no silêncio de nossa percepção, que estas pessoas são muitas vezes também de alguma maneira escusas na vida pessoal.
            Pode-se dizer, via de regra, que o verdadeiro profissional não relativiza, não barganha e nem abre mão de suas verdades profissionais por força das circunstâncias, da mesma maneira como não põe em xeque os seus valores pessoais. Em outras palavras, não se prostitui profissionalmente da mesma maneira que não o faz no tangente aos seus assuntos de foro íntimo.
            Sem dúvida, somos humanos... E, por humanos sermos, estamos sujeitos a fraquezas e às inconstâncias próprias do plano terreno e da vida material. A questão da ética e dos valores se impõe exatamente no limite entre aquilo que é aceitável e aquilo que não é.
            A música, originalmente um canal direto de comunhão com o Divino e com o inefável, inicialmente consagrada aos ideais superiores de beleza e estruturada sobre princípios filosóficos e mesmo herméticos, tem sido ao longo do tempo corrompida e deteriorada, até o ponto de, a exemplo do que acontece em nosso país, ligarmos o rádio e termos acesso quase única e onipresentemente a uma pretensa “música” pobre, desprovida de qualquer beleza e reduzida a padrões sonoros limitados e quase sempre acompanhados de letras desprezíveis e desconstrutivas. Um verdadeiro desserviço não apenas à sociedade, como à humanidade e à função primordial da música.
            Não quero aqui fazer apologia à música chamada erudita ou culta, que é o cerne da minha atividade, pois também no meio musical acadêmico, a exemplo do que ocorreu também nas artes pictóricas, o materialismo e o espírito arbitrariamente reacionário ao passado levaram infelizmente à produção de uma música excessivamente cerebral, elitista e inacessível – para não dizer intragável.
            A verdade é que, pelo que deduzimos de uma análise da história, estamos na polaridade oposta ao começo. Ou seja, um ciclo está para se fechar. Explico-me: a música era uma realidade harmônica superior e inicialmente imanifesta. No plano terreno, materializou-se em arquétipos sonoros que refletiam a perfeição do mundo superior. Falou de divindades e do Divino. A religião, numa dada altura, condicionou-a em seus cânones. Também ela viveu a era das trevas e da escuridão. A Renascença a fez mergulhar no homem, para que este pudesse por seu intermédio retratar a perfeição da natureza. Mais adiante, as paixões humanas passaram a regê-la, e é exatamente nesse ponto em que, a nosso modesto porém sincero ver, houve a “queda”; a corrupção. Também a música, forçada pela sedução da serpente, deglutiu a maçã das humanidades para doravante servir os interesses humanos. Os excessos do Romantismo, no século XIX, que trouxeram o sentimento e as emoções humanas para o primeiro plano nas artes, resultaram numa abertura de comportas que fez com que todo o resto, inclusive os atributos mais fundamentais e elementares da arte, fosse posto de lado. Em outras palavras, abriu-se mão cada vez mais dos princípios e ideais da arte em favor de um sentimentalismo anárquico e venenoso que veio desaguar num sem-compromisso absoluto da arte em nossos dias. Uma reação a isso, na primeira metade do século XX, embora tenha ampliado as possibilidades da linguagem artística, abriu caminho também para que a música erudita contemporânea explorasse rumos tão pouco usuais que acabou num nihilismo reacionário tão absurdo e num experimentalismo tão gratuito quanto autodestrutivo: a famosa estrada que termina em lugar nenhum ou o tiro que se dá no pé. Disso, temos que hoje o que está ao alcance da nossa mão é uma “música-produto”: um objeto comercial que, como qualquer outro objeto comercial, está sujeito a modismos e tendências, algo muito diferente daquilo que fora no princípio, ou seja, uma arte regida pelas leis imutáveis do Divino.
            Quantos colegas conheço que subverteram o ideal professado no juramento de formatura em favor de uma atividade profissional regida unicamente pelo dinheiro e pelo reconhecimento de uma massa ignóbil... É certo que a humanidade (a grande massa, em particular) precisa ser educada para reconquistar o acesso ao mundo sutil pois, afinal, o que é o correto? Elevar o povo à altura das grandes obras de arte, expandindo assim sua consciência, ou rebaixar a arte ao plano do medíocre e do barato? Será que vale tanto a pena produzir uma pseudo-música massiva pelo único mérito de poder assim contemplar a grosseira exigência imediata de consumo que não exige o esforço de um conhecimento refinado e nem tampouco a sensibilidade da alma? Não se diz que um músico que alcançou o pleno domínio das possibilidades de seu instrumento é um “virtuoso”? E “virtuoso” não significa exatamente “cheio de virtudes”, essas às quais devemos erigir templos?
            Na nossa percepção pessoal, parece que a música tradicional, dita de raiz, é a mais autêntica, na medida em que se conserva mais ou menos próxima à fonte da inspiração simples e espontânea das realidades culturais puras e desprovidas de interesses tendenciosos.
            Cabe aqui uma pequena confissão: por tanto ver o ofício da música deturpado e subvertido, o que por muitas vezes faz dessa arte, por culpa dos próprios músicos, uma ocupação marginal, sobretudo em nosso país, tenho preferido a denominação de “musicista”, por ter a percepção (talvez equivocada, é verdade) de que esse termo esteja um pouco mais próximo aos ideais legítimos a que aspiramos. É bem verdade também que, num país onde as pessoas se consideram com frequência “bastante musicais”, ocorre muitas vezes de um indivíduo que conhece dois ou três acordes se auto-proclamar “músico”. Ora, isso é tão ridículo quanto ministrar uma Aspirina a alguém e se auto-proclamar “médico”. Será possível que o fato do produto da arte ser algo mormente eclético e acessível seja suficiente para fazer de todo indivíduo capaz de traçar duas linhas, versejar algumas palavras ou cantarolar uma melodia, um “ARTISTA”? Deixo a cada um a resposta que mais lhe convier...
            A arte, ao contrário de outros domínios do conhecimento, tem a prerrogativa de poder (e mesmo dever) prescindir de tendências momentâneas, uma vez que, vinda do Divino e para ele mostrando o caminho de regresso, não pode fazer cessão a gostos e inconstâncias daquilo que é impermanente e humano. É por essa razão que o artista criador deve se perguntar, antes de passar à produção em si, se aquilo que ele está prestes a gerar é de fato válido e digno, e não apenas fruto de uma emoção sazonal ou de um desejo de exteriorização egoístico. O que disse Carlos Drummond de Andrade a respeito da poesia, na frase que citaremos a seguir, aplica-se absolutamente a qualquer das artes. Disse ele: “Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação”. Ou ainda, nas palavras atribuídas a Thomas Edison: “Talento é 1% inspiração e 99% transpiração”, no sentido de que é o esforço (ou, em outras palavras, o uso que fazemos da providência divina) que santifica e valida a substância da arte enquanto caminho de ascensão.
            A confiança que depomos nas leis superiores operadas pela Grande Sabedoria Infinita deve nos incitar a perseverarmos firmes na retidão de nosso comportamento, pois apesar de eventuais privações e provações impostos pela materialidade quando nos recusamos a ceder a tentações e vícios, temos a certeza interior da recompensa que nos aporta o serviço bem feito. Nisso, a lembrança de nossas obrigações cármicas deve também sempre estar presente em nossa lembrança – no umbral de nossa consciência – para nos alertar quanto aos perigos dos fáceis e escusos subterfúgios de que muitas vezes nossos semelhantes (não tão semelhantes assim...) fazem uso.
por Raul Passos, em 22 de Março de 2012