"O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos." (Marguerite Yourcenar)

«Adevăratul loc de naştere este acela unde pentru prima dată ai aruncat asupra ta însuţi o privire pătrunzătoare» (Marguerite Yourcenar)

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5 de dez de 2012

A HOLÍSTICA DO RÉQUIEM DE FAURÉ: um cântico de serenidade e ecumenismo





Manuscrito do Requiem op.48: In Paradisum; Bibliothèque Nationale, Paris.

            Compositor que passou à posteridade como sinônimo de refinamento, rigor e elegância, Gabriel Fauré (1845 - 1924) legou-nos uma relativamente extensa produção caracterizada pela sutileza, pelo detalhe e – sobretudo – por uma linguagem musical que a todo instante parece transcender o limite da própria música e insinuar um algo mais que é ao mesmo tempo intangível e indefinível. É precisamente esse « algo mais » que constitui a assinatura sonora do compositor francês. Em Fauré vemos a projeção exponencialmente ampliada de duas das principais características da música francesa : a recusa ao excesso e o burilamento do detalhe. Provas maiores disso são sua primorosa música de câmara – incluindo as chansons –, a distinta produção para o piano – no conjunto da qual situamos a ímpar Balada op.19 – e, numa medida muito especial, o seu Requiem op.48, obra de longa gestação e expressão plena da filosofia íntima do compositor.
            Embora menos interpretada do que as obras homônimas de Mozart, Verdi ou Brahms, o Requiem de Fauré figura entre as composições de maior prestígio não apenas do gênero como do repertório francês. Sua característica marcante e distintiva é sem dúvida, além da sobriedade de concepção, sua atmosfera diáfana e luminosa, tão incomum nas obras de um gênero em que predomina a aflição associada à morte e a incerteza do pós-vida. Em sua versão, Fauré evidencia sua concepção holística e espiritualista da morte transmutando a gravidade litúrgica do texto e da música que soía ser composta para esse tipo de obra e dando lugar a uma arquitetura sonora predominantemente leve e luminosa. Para tanto, maneja a paleta orquestral de modo a conferir à obra uma atmosfera quase translúcida, com élans de severidade sublinhando antes as inflexões de certas palavras do que porções integrais da música. Nesse particular, a partitura se revela pródiga no tratamento das dinâmicas e no fluxo expressivo das construções fraseológicas. Outro recurso de que Fauré lança mão é a alteração deliberada do texto do cânone católico de forma a universalizar uma mensagem de consolo e de libertação, ao invés do habitual temor do julgamento e da punição que se operariam no além.

Composição
De todas as partes que integram o Requiem, a mais antiga é o Libera Me, que Fauré havia composto em 1877 como uma obra independente. Contudo, a primeira performance do Requiem não trazia o Libera Me, contendo apenas o Introitus, o Kyrie, o Pie Jesu, o Agnus Dei e o célebre In Paradisum. Esta versão primeva foi executada pela primeira vez em 16 de janeiro de 1888, na igreja parisiense da Madeleine, por ocasião das exéquias do arquiteto francês Joseph-Michel le Soufaché. Fato curioso, a parte solista de soprano foi cantada na ocasião por um garoto prodígio de 11 anos – o futuro compositor Louis Aubert. Posteriormente – o mais provável na primavera de 1889 –, o compositor acrescentou o Offertorium, com a possível exceção do coro O Domine, que talvez date do começo de 1893. Esta primeira versão de facto foi também executada na Madeleine, sob a batuta de Fauré, em 21 de janeiro de 1893.
Em 1898, o editor Julien Hamelle solicita a Fauré uma versão mais robusta do Requiem, com vistas ao emprego de um efetivo orquestral completo. Permanece até hoje uma incógnita se a orquestração que daí derivará foi efetivamente escrita por Fauré. É bastante provável que ela tenha sido levada a cabo por um de seus alunos, ao que tudo indica Jean-Roger Ducasse, uma vez que Fauré se achava ocupado com múltiplas outras tarefas. O músico britânico John Rutter sustenta essa tese afirmando que o sempre escrupuloso e meticuloso Fauré não teria deixado passar os muitos erros e imprecisões que de fato traz a primeira edição da obra. Além disso, era praxe Fauré confiar a algum de seus alunos as tarefas de orquestração e redução para piano de muitas de suas obras. A versão orquestral foi estreada em 12 de julho de 1900 no Palais du Trocadéro sob a direção de Paul Taffanel, como parte da programação de concertos oficiais da Exposição Universal de 1900. Uma terceira versão foi estreada em 1988 após a descoberta, em 1968, de um manuscrito da versão original nos subsolos da igreja da Madeleine. A comparação das partes instrumentais com o manuscrito de Fauré, conservado na Biblioteca Nacional da França, possibilitou ao musicólogo Jean-Michel Nectoux reconstruir esta versão no decurso dos anos 1970.

Concepção
À parte o já citado Libera Me, a composição do Requiem se arrasta entre 1887 e 1890. Embora não haja evidências de um motivo específico ou intenção particular que o tenha levado à composição do Requiem (ele próprio declarou: « Meu Requiem foi composto sem nenhum objetivo... apenas por prazer, se é que posso dizer algo assim ! »), é difícil descartar a influência emocional que possam ter produzido na pena do compositor as mortes de seu pai, em 1885, e de sua mãe, na véspera do ano novo de 1888.
Fauré servira na igreja da Madeleine como organista por diversas vezes substituindo Camille Saint-Saëns e passara à função de mestre de capela em 1877. Tendo composto seu Requiem nos anos seguintes, Fauré declarou, a respeito da aura de sua obra: « Talvez eu tenha instintivamente tentado fugir da praxe, por ter por tanto tempo acompanhado ao órgão os serviços fúnebres! Eu já estava saturado daquilo e quis fazer uma coisa diferente ». Além disso, é preciso salientar o fato de que Fauré se declarava « não crente, mas tampouco cético », de acordo com as palavras de seu filho Philippe Fauré-Frémiet. Eugène Berteaux acrescenta ademais que « para Fauré, a palavra ‘Deus’ era apenas o gigantesco sinônimo da palavra Amor ». Desta feita, o fato de não ter sido religioso, no sentido convencional do termo, não atesta uma repulsa à religião, e sim uma inclinação à espiritualidade, mais aberta, irrestrita e – quiçá – ecumênica. Fauré, de fato, confessara: « Disseram que meu Requiem não exprime o medo da morte. Alguém até o chamou de ‘acalanto da morte’. Todavia, é assim que eu a concebo: como uma entrega venturosa uma aspiração à felicidade do além mais do que como uma passagem dolorosa... ». E mais : « Tudo o que consegui absorver por meio de ilusão religiosa eu coloquei no meu Requiem, que é além de tudo dominado do começo ao fim por um sentimento bastante humano de fé no repouso eterno ».
O musicólogo francês Marc Honegger ressalta, por fim, que o sentimento « religioso » de Fauré « se evidencia mais ainda em suas últimas composições, as quais introduzem na música uma expressão intimista, misteriosa e vizinha ao sentimento religioso e testemunham uma alta filosofia da vida ».

Características interpretativas
Uma das passagens mais belas da obra é a diáfana ária para soprano Pie Jesu, que pode ser interpretada pela voz branca de um soprano infantil, o que ademais lhe confere uma aura de pureza angelical incomum. Saint-Saëns disse a respeito desse fragmento a Fauré, de quem fora professor: « Assim como o ‘Ave Verum’ de Mozart é ‘o’ Ave Verum, o teu ‘Pie Jesu’ é o ‘único Pie Jesu’ ».
Os tímpanos são usados parcimoniosamente e de maneira muito pontual – apenas no Libera Me, onde também se encontra um dos ápices emocionais da obra : a entrada em uníssono do coro, numa súplica íntima, suave e pungente. O timbre do barítono está na obra a serviço de um cálido e compadecido envolvimento, mais do que a um caráter imperativo, inquisidor e severo. Não obstante, é o mesmo barítono que apresenta o momento de maior austeridade do Requiem, qual seja, o começo do próprio Libera Me, pontuado pela harmonia solene e algo sombria do órgão. O único momento da partitura a conter um elemento flagrantemente dramático é a breve passagem do Dies Irae – a ‘ira divina’ – cujo texto ameaçador, que encontrou eco nas célebres páginas musicais de Cherubini, Mozart e Verdi, antagoniza com a natureza serena da obra de Fauré, certamente se opondo também à própria filosofia pessoal do compositor.
            Mas o que inquestionavelmente define o astral holístico da composição é a presença do coro infantil. No In Paradisum, a melodia conduzida pelas crianças, acompanhadas tranquilamente pelos registros do órgão positivo, pelas cordas e pela harpa, materializa a certeza do repouso eterno e culmina a obra não na engessada esquadria da visão cristã, mas sim num etéreo paganismo que sugere o acolhimento indistinto de todas as almas num quase nihilismo.
A tônica da obra pode, portanto, ser condensada em duas palavras: maravilhamento e esperança.

Texto
O texto litúrgico latino tradicional é objeto de várias alterações por parte de Fauré. O compositor altera substancialmente sua estrutura inicialmente pela omissão da Sequenz (que traz as conhecidas estrofes Tuba mirum, Rex tremendae e Lacrimosa) e do Benedictus. O texto do Dies Irae, que também figura na Sequenz, só aparecerá na parte central do Libera Me, fazendo desse fragmento o mais denso da obra. O texto Libera Me, a propósito, não integra o conjunto de textos canônicos do Requiem, sendo tradicionalmente cantado a parte. Fauré, além de incorporá-lo ao seu Requiem, adiciona ainda os versos de In Paradisum, descrevendo uma visão reconfortante e plácida do paraíso.
Fauré altera ainda certas passagens significativas ao longo de todo o texto, suprimindo o terceiro verso do Offertorium (que menciona São Miguel e Abraão), acrescentando ‘Amen’ ao final da passagem e, perspicazmente, omitindo duas palavras na sentença « libera animas omnium fidelium defunctorum (‘liberta as almas de todos os fiéis mortos’) », de maneira que o texto resultante é « libera animas defunctorum (‘liberta as almas dos mortos’) », o que sugere uma intercessão divina em favor de todos os finados, e não apenas dos cristãos. Um apreciável e nobre desvio teológico!

Projeção
            O opus magnum de Fauré não tem cessado de ser executado e é particularmente surpreendente o uso que a mídia tem feito de várias partes da obra, sobretudo do Pie Jesu e do In Paradisum. Ouvimos as notas do Requiem em filmes como Copycat e Beleza Americana ou ainda, curiosamente, no seriado South Park.
O Requiem de Fauré reinaugura de certa forma a música religiosa francesa e influenciará mais tarde, em espírito e forma, as obras análogas de Duruflé e de Ropartz. Ora, não parece absolutamente pertinente e natural que tenha sido justamente na França, pátria do Iluminismo e berço de fidedignas e influentes correntes esotéricas, que tal mudança de paradigma se tenha produzido? Além disso, parece-nos perfeitamente lógico que tal síntese apontando para o universalismo e para a abertura de espírito tenha se operado pelas mãos refinadas e pela sensibilidade aberta de um artífice ímpar e sofisticado como Gabriel Fauré.
 por Raul Passos
Discografia sugerida:
* Choir of Westminster Cathedral, City of London Sinfonia; David Hill (reg.); David Wilson-Johnson (barítono); Aidan Oliver & Harry Escott (sopranos) - HMP CLASSICS.
* City of London Sinfonia; The Cambridge Singers; Caroline Ashton (soprano); Stephen Varcoe (barítono) / John Rutter (reg.) - COLLEGIUM RECORDS.

Bibliografia
§  DUCHEN, Jessica. Gabriel Fauré (col. « 20th Century Composers). Londres, Phaidon, 2000.
§  ENCICLOPÉDIA SALVAT « OS GRANDES TEMAS DA MÚSICA ». Vol. 36 Gabriel Fauré – Requiem op.48, 1983.
§  FAURÉ, Gabriel, Correspondance / Gabriel Fauré ; textes réunis, présentés et annotés par Jean-Michel Nectoux. Paris, Flammarion, 1980, cartas n° 66, 67 , 114 e 128.
§  HONEGGER, Marc. Dictionnaire de la Musique. Bordas, 1979. Artigo: « Fauré, Gabriel ».
§  HOUZIAUX, Mutien-Omer.  À la recherche « des » Requiem de Fauré ou L’authenticité musicale en questions. Revue de la Société Liégeoise de Musicologie, nos  15-16. Prefácio de Jean-Michel Nectoux.
§  JONES, J. Barrie. Gabriel Fauré – A Life in Letters. London, B. T. Batsford Ltd., 1989. 
§  NECTOUX, Jean-Michel. Gabriel Fauré : les voix du clair obscur (col. Collection Harmoniques). Paris, Flammarion, 1990.
§  ROLLIN, Vincent. Le Requiem op. 48 de Gabriel Fauré : une esthétique sacrée et funèbre originale et personnelle. Dissertação de Mestrado, Université Lyon 2, 2007.
§  RUTTER, John. Prefácio do Requiem Op. 48, de Gabriel Fauré. Chapel Hill, NC, Hinshaw Music, 1984.
§  STEINBERG, Michael. Gabriel Fauré : Requiem, Op. 48 ; Choral Masterworks : A Listener's Guide. Oxford, Oxford University Press, 2005, 131–137.
§  THE OXFORD DICTIONARY OF MUSIC. Michael Kennedy (editor). Verbetes « Fauré » e « Fauré’s Requiem ». Oxford, Oxford University Press, 2006.