"O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos." (Marguerite Yourcenar)

«Adevăratul loc de naştere este acela unde pentru prima dată ai aruncat asupra ta însuţi o privire pătrunzătoare» (Marguerite Yourcenar)

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27 de mar de 2013

FRANCIS POULENC, ÉDITH PIAF E O CHÂTEAU D’OMONVILLE


O Château d’Omonville, situado na região francesa da Normandia, é a sede da Grande Loja de Língua Francesa da AMORC e juntamente com as construções do Parque Rosacruz de San Jose, na Califórnia, é o edifício mais emblemático da Ordem Rosacruz. Além de seu valor afetivo para os rosacruzes, trata-se de uma construção importante também do ponto de vista histórico – falamos aqui de uma elegante edificação em pedra cujas bases foram lançadas em 1754 e que foi concluída na segunda metade do século XVIII.
Contudo, ainda existe outra curiosidade, esta de interesse musical, que chama nossa atenção para o Château: até fins da década de 50 (em 1969, após quase uma década de abandono, o Château passa a ser propriedade da AMORC), ele fora propriedade do rico notário parisiense André Manceaux e de sua esposa Jeanne, que vem a ser irmã mais velha do célebre compositor Francis Poulenc, cujos 50 anos de morte são relembrados agora em 2013 por todo o mundo da música.
André e Jeanne adquiriram o Château em 1927. No decorrer dos anos, eles empreenderam a longa e meticulosa restauração que devolveu à construção o seu esplendor. Assim, ocorre que o notável compositor passou muitas temporadas em Omonville durante aquele período (até mesmo algumas fotos de seus momentos de lazer no Château podem ser vistas em http://www.poulenc.fr/?Photos). Na quietude daquele local, Poulenc compôs algumas de suas obras-primas, entre as quais o ciclo de canções Le Travail du Peintre (O Trabalho do Pintor), dedicadas cada uma a um dos seus contemporâneos gênios da pintura (a saber: Pablo Picasso, Marc Chagall, Georges Braque, Juan Gris, Paul Klee, Joan Miró e Jacques Villon).
Poulenc passou à história como um compositor que trouxe à música francesa o frescor da espontaneidade: sua música, que arranca aquele sorriso de identificação e cumplicidade do ouvinte, é de escritura sofisticada, embora faça uso de uma linguagem simples, sendo profunda sem ser aborrecida e ao mesmo tempo leve sem ser superficial, para tomarmos de empréstimo as palavras do pianista francês Pascal Rogé.
O melodismo de Poulenc, que nos arrebata em obras como Les Chemins de l’Amour, nos leva a evocar Édith Piaf, ilustre cantora e rosacruz cujas qualidades interpretativas tanto acrescentaram à música francesa. Poulenc e Piaf eram amigos e para ela o ilustre compositor escreveu a última de suas Improvisations para piano, em 1959, que leva o subtítulo “Hommage à Édith Piaf” – Homenagem a Édith Piaf.
O quarto de música do Château d’Omonville, onde ficava o piano do compositor e onde ele materializou muito da música que lhe inspiravam as Hostes Cósmicas, hoje é o escritório do Imperator, que vem a ser o dirigente mundial da AMORC. Ele certamente continua a receber o influxo da Inspiração Divina para a boa condução da Ordem e a desfrutar das excelentes vibrações lá deixadas pela música de Francis Poulenc.
Raul Passos

7 de mar de 2013

O DIA EM QUE OS RUSSOS DESCOBRIRAM A AMÉRICA



Van Cliburn é condecorado pelo presidente dos EUA, Barack Obama

No último dia 27 de fevereiro, faleceu nos Estados Unidos o lendário pianista Van Cliburn. Pois bem, como a mídia pouco ou nada falou sobre essa excepcional figura da música, faço-lhe eu alguma justiça por essas linhas.

            Quem foi Van Cliburn? Ora, o norte-americano que conquistou a Rússia – ou que pelo menos deu uma generosa ducha de água fria na empáfia soviética. Como ele operou esse feito? Vejamos o contexto histórico: era o auge da guerra fria. Em 1957, a Rússia suplantava os Estados Unidos na corrida espacial com o triunfal lançamento do satélite Sputnik I. A exemplo do que havia tentado fazer Hitler nas Olimpíadas de Berlim, em 1936 (não me entendam mal: guardadas as devidas proporções!), quiseram os soviéticos demonstrar sua superioridade também nas artes, e para tanto criaram o Concurso Internacional Tchaikovsky. Porém, também a exemplo do que ocorrera naqueles jogos olímpicos, quando Jesse Owens humilhou a Alemanha nazista debaixo das barbas (ou melhor, do bigodinho) do fuhrer, a história não se deu como o planejado.

O júri do concurso rendeu-se à interpretação de Van Cliburn para uma obra monumental do repertório pianístico: o Concerto para Piano n°3, de Rachmaninov, famoso por sua himalaica dificuldade técnica. O público o ovaciona por quase 10 minutos. Contudo... era um norte-americano. Sobrou para o compositor Dmitri Shostakovich, presidente do júri e habitual vítima das maçadas das autoridades soviéticas, – com seus óculos à la Harry Potter – subir à tribuna onde se encontrava o líder soviético Nikita Khrushchev para perguntar se poderiam dar o prêmio ao yankee. Khrushchev, provavelmente resignado, perguntou-lhe “Ele foi o melhor?” À afirmativa de Shostakovich, o líder respondeu “Então dêem a ele o prêmio!”. Era a glória!

        Assim como o Sputnik, sua carreira foi lançada triunfalmente. Até hoje sua interpretação do Concerto para Piano n°1, de Tchaikovsky, permanece quase imbatível (igualada apenas, na minha modesta porém sincera opinião, pela de um pianista russo – ironia! –: Shura Cherkassky).

            Palavras de Van Cliburn:

„Eu aprecio, mais do que você um dia saberão, o fato de vocês me prestarem homenagens. Contudo, o que me emociona mais é que vocês estão homenageando a música clássica, pois eu sou apenas um entre muitos. Sou apenas uma testemunha e um mensageiro, pois eu acredito tanto na beleza, na construção, na invisível arquitetura quanto na importância que tem para todas as gerações o fato de jovens se darem conta de que a música clássica ajudará suas mentes, aprimorará suas atitudes e lhes dará valores. Eis porque sinto-me tão grato por terem-me homenageado nesse espírito.

            Em tempo: no último dia 5 de março, quando a Venezuela via desaparecer seu mais-que-controverso líder político e o Brasil enterrava um vocalista arruaceiro e brigão, completou-se 60 anos da morte do compositor russo Sergei Prokofiev – fato imbecilmente ignorado pela imprensa tupiniquim a despeito de uma ocorrência curiosa: a exemplo de seu compatriota Shostakovich, o que Prokofiev tinha de genial, tinha de azarado. Inventou de morrer no mesmo dia que o líder soviético Josip Stalin. Resultado: seu corpo não pôde ser transportado ao cemitério porque a multidão tomou as ruas por três dias. Além disso, não havia flores para seu funeral, pois todas estavam reservadas para o sepultamento do ditador cujas mãos haviam ceifado milhões de vidas ao longo de sua permanência no poder (pergunto-me por que não há estátuas dele no centro de Moscou...). Alguns alunos abnegados ornaram seu féretro com flores artificiais.

Mas isso já é outra história...

RAUL PASSOS